Androville | conto / pt.2
A pasta preta

No décimo sexto andar daquele prédio, Paulo contemplava a cidade que levava seu nome. Hector aparece e uma porta dupla ao lado.
- Perdão deixa-lo esperando, tive que resolver umas pendências. Entre, por favor. O café é simples, bem brasileiro.
Uma pequena mesa estava posta. Uma garrafa de café, um pequeno bule, biscoitos, pedaços de bolo e pequenos pães de queijo. Paulo gostou, pois estava com fome.
- Sirva-se, o pão de queijo está quentinho.
- Obrigado. – Paulo sentou, colocou café em uma xícara. Parou. Colocou as mãos sobre a mesa pensando. – Quem é o senhor? Então, tem informações minhas? Colocou algum detetive na minha rua?
- Não – riu Hector – Bem, algumas informações suas estava na ficha que mandou pra minha equipe quando você trabalhava no site, simples assim.
“Hummm, parece plausível” pensou Paulo enquanto comia um pão de queijo. Olhava aquele homem sentado a sua frente, novamente de pernas abertas, como se quisesse mostrar algo ao mundo. O silencio já estava ficando constrangedor quando Hector propôs:
- Vamos fazer um troca-troca?
- Que? – perguntou Paulo assustado. “eu não vou dar o meu cu!” pensou consigo.
- Aquilo de... perguntas rápidas com respostas rápidas.
- ahh – disse Paulo aliviado enquanto engolia seu segundo pão de queijo – você quer dizer “bate e volta”.
- ehh creio que é isso! Visito seu país todos os anos, mas sua língua é difícil de dominar.
- humm – Paulo fez um sorriso malicioso – não é tanto assim.
Hector arqueou umas das sobrancelhas como se entendesse o duplo sentido que se formou. Continuou:
- Eu dou as cartas. Falo a resposta diretamente, e dai o senhor fala a sua. Sem ‘bersanejar’.
- O senhor quer dizer “pestanejar” hehe. Ok, vamos lá...
- ehh! Isso, creio que é isso! – respondeu Hector desconcertado – Preparado? – respirou fundo pensando por breves segundos – Alemão, 54 anos.
- Brasileiro, 30 anos. – respondeu Paulo comendo uma fatia de bolo.
- Sou empresário, trader, advogado e professor.
- Sou jornalista, publicitário e... – ponderou por um segundo. – desempregado.
- Divorciado. Uma filha.
- Solteiro. Sem filhos.
- Bissexual. – Hector já olhava fixamente em seus olhos.
- Idem. – disse Paulo com sorriso de canto.
Hector inclinou-se para trás, apoiando as costas na poltrona.
- 25 centímetros.
- Quê? - Paulo quase engasgou com o bolo. Desviou o olhar pra baixo e, pela mesa de vidro, percebeu o quanto aquele volume acima da perna no senhor Hector tinha crescido – ehh... eu acho que essa não é sua medida de bíceps, não é?
- Não, senhor Paulo. De bíceps tenho 45 centímetros. O numero que eu disse é do meu pênis ereto. Daqui pra frente muita coisa vai girar em torno de informações desse tipo.
- Como assim? – Paulo riu de nervoso. – bem... só 19 centímetros. – respondeu ele desviando o olhar desapontado para a xícara de café.
- Uau! Muito bom. Mas do que a media do seu país. Mais do que os sudaneses, donos dos maiores paus. – disse Hector com um tom professoral.
- Eu sei que é maior, mas eu queria ter os 20 centímetros. O senhor é bem maior que eu.
- Paulo, o senhor estava olhando a cidade antes de eu entrar. A maioria daqueles homens lá embaixo tem pênis menores que o seu. Tente que olhar o mundo a partir do seu ponto vista. E mesmo se tivesse 15, 14, 13 centímetros, não há problemas. – continuou com o tom professoral . - O pênis é importante pelo potencial que está nele independente do tamanho. Nós homens somos abençoados por tê-lo, ESSA é a grande sorte. É nisso que está fundamentado o que irei lhe apresentar.
- Esse condomínio é uma espécie de parque temático gay ou...
Não – respondeu Hector rapidamente inclinando-se pra frente. – Não é parque temático e não é gay. Não é para gays, é para homens. Sejam eles homossexuais, bissexuais, pansexuais e... heterossexuais, por que não? É para homens que reconheça seu privilegio de nascença. Que estejam dispostos a ver o pênis além de uma peça anatômica e sim como um símbolo. Só é necessário estar aberto a uma vivencia que, dentro daqueles muros, se tornará comum baseado na completa androfilia.
- Essa é a questão de não haver mulheres, certo?
- Isso mesmo. – respondeu o homem com um sorriso complacente.
- Mas como manter um condomínio só de caras? Tipo... nos outros condomínios as pessoas tem filhos que ficam com as casas e...
- Senhor Paulo, nosso empreendimento é de construir residências, de cabeamento para carros e curtume, não é uma fazenda de gente.
Paulo parou um biscoito entre os dentes ficando desconcertado. Hector percebeu.
- Perdoe meu jeito de falar, alemães são assim. Mas você tem razão. É uma dúvida lógica que será respondida.
Hector levantou indo até uma escrivaninha e Paulo não pode deixar de perceber a protuberâncias em sua calça que agora apontava pra frente. Naquela altura da conversa já estava mais do que na hora de falar do ‘grande elefante branco na sala’.
- O senhor fica bem excitado ao falar sobre seus empreendimentos, né? E quando digo ‘excitado’ é em todos os sentidos. – Paulo disse enquanto enfiava outro biscoito na boca.
- ah! – Por um segundo Hector olhou para o jovem e depois para baixo, vendo o peso que seu pênis, que sequer estava 100% ereto, fazia em suas calças. – É por isso que digo: a melhor coisa é trabalhar com aquilo que de fascina. – completou ele pegando uma pasta preta na gaveta e entregando ao rapaz.
- É com isso que minhas dúvidas serão sanadas? Eu ainda tenho duvida de quem o senhor é.
- Eu sou um homem que adora ser homem. – disse Hector colocando café em um xícara. - Adora o corpo de outro homem, a ponto de preferir transar com outro homem. Por isso meu casamento não suportou. Infidelidade de ambas as partes, mas só eu sabia da infidelidade da parte dela, ela não sabia que eu fui infiel dias depois do casamento. Durou o suficiente para termos uma filha que amo e tenho contato. – continuou ele sentando na cadeira. – Nesse tempo fiquei com vários homens e também com algumas mulheres. Mas eu era muito sigiloso e cuidadoso, ela realmente não sabia. Mas eu sabia que ela ficava com o professor particular da nossa filha. Uma bela tarde eu a peguei aos beijos com ele na sala. Foi um desconforto terrível para ambos mas, uma oportunidade para eu seguir o meu caminho. Minha filha tinha dezessete anos na época. Enfim... – suspirou tomando um gole de café. – Até hoje eu me sinto culpado, pois a enganei também. Enganei muito. Naquele tempo não fui homem o suficiente que achava que era.
Paulo esfregava a mãos ouvindo tudo. Olhava para Hector, para a pasta na mesa, para a cidade de São Paulo na janela.
- Entendi. O senhor é somente um homem comum, que ao mesmo tempo está muito acima da média. – sacudindo o dedo indicador. - Especificamente oito centímetros acima da média dos sudaneses.
- há! Há! – riu Hector apalpando o pau por cima das calças. – É algo nesse sentido. Espero que o senhor já se sinta confortável o suficiente para conhecer-nos.
- Claro! – disse Paulo saltando pra frente, pegando a pasta preta sobre a mesa. – Este é o projeto?
- Este é o projeto. – Hector apontava para a pasta. – E este é o contrato, senhor Paulo. Está tudo nesta pasta. O senhor vai leva-la e estuda-la bem. Somente poucos homens desse projeto ganharam uma pasta tão completa, pois um dos nossos princípios é a confidencialidade, o sigilo total. Não queremos a mídia marrom ou fanáticos evangélicos acampados junto aos nossos portões. Eu confio no senhor. E caso aceite muitas outras respostas virão.
- Entendi. – Respondeu Paulo apertando a pasta, totalmente hipnotizado com o olhar de Hector. – Posso pedir algo?
- Claro!
- Não me chama de ‘senhor’ – riu nervosamente. – Acho estranho. Já nos conhecemos o bastante para passar dessa linha.
- Aceito, mas só se houver igualdade nesse tratamento. Seja lá qual for a média, somos iguais, certo?
Paulo balançou a cabeça concordando.
- Então, a partir de agora eu e você nos tratamos assim. – continuou Hector acabando seu café.
- Vou tentar, senh... digo, Hector. É meio difícil se tratando de alguém igual ao... igual a você. – Paulo teve certa dificuldade em tentar fingir aquela igualdade que não existia.
- Você vai acostumar, Paulo, seremos colegas, talvez. – riu. – Bem, eu não vou poder acompanha-lo até sua casa. Vou chamar o motorista. Espero que você não se incomode.
- Claro que não. – na verdade Paulo se incomodava um pouco sim. – Vou ler tudo e entro em contato.
- Leia com atenção e pense com suas duas cabeças, Paulo. Grandes experiências virão.
Hector levantou da cadeira estendendo a mão e mais uma vez o rapaz não pode deixar de notar.
“Caralho, aquilo não vai abaixar nunca?”

Comentários
Postar um comentário