AndroVille | Conto / pt.1
O Encontro

“..é com muito orgulho que convidamos o senhor a conhecer e escrever sobre o primeiro condomínio androfilo fascinistas das Américas.”
Paulo ainda estava com sono enquanto tentava ler a carta entregue a ele naquela manhã de segunda-feira. Tinha atendido o entregador ainda usando seu shorts de dormir. Tomou água, colocou a cafeteira para fazer um café e sentou a mesa para ler o texto escrito à mão que receberá.
“Androfilo Fascinista”? “Exclusivamente masculino”? “Empreendimentos no Brasil”?
Como pode existir um condomínio só para homens? Paulo pegou o celular. Nem o Google sabia o que era fascinista.
A epistola de duas folhas explicava vagamente o empreendimento que seria a morada de 700 trabalhadores homens solteiros que prestariam serviços para uma indústria de cabeamento automotivo para carros elétricos e para outra indústria de curtume de couro para moveis corporativos. A "AndroVille". O texto expressava muito respeito a Paulo, como se já o conhecesse de algum lugar, e deixava claro o desejo de tê-lo trabalhando junto à equipe.
“Estarei na sua cidade pelos próximos dez dias para resolver pendências dos empreendimentos. Por favor, entre em contato com meu secretário pelo número registrado no envelope e agende um dia e hora para que eu, pessoalmente, possa ir até o senhor. Atenciosamente, Hector Hansmann.”
Paulo achou aquilo tudo muito estranho. Seria um sequestro? Uma pegadinha? Seria tudo muito custoso pra uma brincadeira, o carro de onde o entregador da carta saiu nem era feito no Brasil.
- ah! É só mandar a placa do carro pro meu primo e ir com meu canivete. Essa porra me deixou curioso.
Paulo gravou o número do envelope (cujo código internacional não era do Brasil) na lista de contatos e, pelo WhatsApp, enviou: “Bom dia. Paulo Mathias aqui. Recebi a carta do condomínio AndroVille. Sábado, às 8 horas estarei disponível para o senhor Hector. Mas se for sequestro, vai ser perca de tempo, não tenho dinheiro”
***
No sábado, Paulo arrumava sua bolsa tiracolo, sempre saia com ela. Documentos, celular, carregador portátil, barrinha de cereal, garrafa de agua, pasta e escova dental...
- Parece está tudo... opa – exclamou ele indo até o banheiro pegando camisinhas e sachês de lubrificante – qualquer coisa eu meto a rola nele!
Ouviu um carro buzinar na frente do pequeno prédio de onde morava. Pela janela do quarto ele viu a traseira da Mercedes-Benz. Pegou seu boné do Mister Olympia e desceu o lance de escadas até o portão enferrujado. Ele não estava vestido para um encontro, estava vestido para andar a pé caso seja expulso do carro longe de casa. Ao trancar o portão, ele percebeu que nunca tinha entrado em um carro daqueles. Do nada pensamentos intrusivos invadiram sua mente formando um pequeno pânico: "nem uso cueca, se eu levantar a perna pra entrar no carro e essa calça rasgar e...”
- Senhor Paulo? – perguntou o motorista de voz grave.
- Sou eu.
- Pode entrar, por favor. – respondeu o motorista fechando a janela
O carro era de um azul escuro muito bonito, todas as janelas estava fechadas. “Quantas pessoas devem ter aqui dentro?” Ao abrir a porta o rapaz teve sua pergunta respondida: Uma pessoa. Um homem de celular na mão, olhava Paulo por cima dos óculos. “Caralho!” Era o Hector Hansmann, ele usava um crachá que o identificava, abaixo do seu nome tinha o cargo de CEO e uma pequena bandeira da Alemanha. “Caraaalho!” Era um cara que não passava despercebido. Parrudo, enorme, com barba e cabelos castanho-dourados, os braços e peitos marcavam na camisa social, olhos azuis que prendiam qualquer um, tatuagens espalhadas pelo pescoço e os braços musculosos. De pernas abertas com calça social, mesmo sendo preta, denunciava o volume: ele estava sem cueca e nada ali estava em repouso.
Paulo entrou no carro com um cuidado um pouco exagerado.
- Muito prazer conhece-lo pessoalmente, senhor Paulo – disse Hector quebrando o silencio com seu forte sotaque alemão, estendendo a mão a Paulo.
- Prazer! ... digo, está mais para uma curiosidade sendo sanada hehe
- Claro, o prazer vem depois, como vocês dizem no Brasil – completou Hector rindo de lado.
- He! He! Por aí! – Paulo ficou vermelho enquanto sentia o aperto forte da mão daquele homem.
A sensação de pequeno pânico voltou quando o carro começou a andar, pois ele tinha notado que não tirou foto da placa para mandar pro seu primo. “E se esse gringo for um negociante de órgãos humanos”. O jovem notou o quanto foi imprudente aquilo que aceitou fazer.Tentou disfarçar o nervosismo:
- Mas o senhor já me conhecia antes? Por onde?
- Bem, senhor Paulo, lembra que escreveu um texto para um site masculinista há uns anos, o Ludus. Lembra?
_ ahhh... lembro. Nossa, mas faz tempo e foi só um freelance, escrevi alguns textos, só um foi publicado. O site nem existe mais.
- Verdade, o site sofreu um ataque hacker. Decidimos mantê-lo inativado desde então. Por isso não publicamos os seus outros textos.
- O senhor era dono do site? – perguntou Paulo.
- Sim, eu era um dos donos. Podemos dizer que desse projeto virtual surgiu tudo o que o senhor está prestes a ver no mundo real.
O carro parou no semáforo. Hector continuava de pernas abertas, balançando-as, com as pontas dos dedos unidos entre elas, como se segurasse uma esfera. O volume do pau ainda marcava junto à perna esquerda. "Aquilo não é uma carteira no bolso, era um pau grosso meia bomba", pensou Paulo.
- Mas eu não trabalho com imobiliária, sou formado em jornalismo e marketing.
- Eu sei. É por isso que precisamos dos seus serviços. Nosso empreendimento necessita de um bom marketing, comunicação, confiança profissional. Desde que trabalhou para o nosso extinto site eu sabia que tinha essa eficiência.
O carro continuou, fazendo uma curva à esquerda. Paulo percebeu que estavam entrando em um bairro financeiro de São Paulo, cheio de prédios prateados e espelhados.
- Parece que o senhor sabe muito de mim. Sabe meu endereço, minha profissão...
- Ah! O endereço é fácil conseguir quando se tem, digamos... tentáculos em vários ramos empresariais. Olha só, o senhor já sabe que eu trabalho com várias coisas, estamos nos conhecendo. – disse Hector esfregando as palmas das mãos.
- Poxa, o senhor é um gringo que me recebeu em um carro desses. É claro que trabalha com várias coisas.
- He! He! – riu Hector repousando as mãos no banco – Realmente, tem razão. Vamos nos conhecer mais, ok? – encostou junto a Paulo, a rapaz arregalou os olhos, pode sentir a respiração quente adocicada da sua respiração. Hector abriu a janela do lado dele e apontou.
- Está vendo aquele prédio com a bandeira da União Europeia? Tenho uma sala comercial lá. Vamos tomar um café e nos conhecer, senhor Paulo.

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